borebi oferece supersalário a médico

06-10-2010 10:24

 

 

   

Borebi oferece supersalário a médico
Na tentativa de ter um profissional para atender na cidade, prefeito Antônio Vaca anuncia vencimento de R$ 8,8 mil
 
Borebi – A falta de médicos no Programa Saúde da Família (PSF) levou a prefeitura de Borebi (45 quilômetros de Bauru) a oferecer salário de R$ 8,8 mil, por carga horária de 8 horas diárias, aos interessados em trabalhar no município. O valor é considerado elevado em comparação ao que é pago por outras cidades da região. Contudo, mesmo com o salário alto, a contratação dos profissionais não está sendo tarefa fácil. Na avaliação do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), mais do que remuneração alta, os médicos precisam ter um plano nacional de carreira.

O salário oferecido pelo município com cerca de 2,5 mil habitantes e orçamento anual de R$ 8 milhões chega próximo ao valor do subsídio pago ao chefe do Executivo, de R$ 10 mil brutos. Para efeito de comparação, um médico que atua no PSF em Bocaina recebe R$ 5.557,00 por seis horas de trabalho diárias. Já em Agudos, o salário é de R$ 5.054,40 por oito horas.

Mas o salário considerado atrativo por muitos parece não agradar os médicos em razão da necessidade de cumprimento de carga horária de oito horas. A maioria prefere atuar em grandes centros, em mais de um emprego, como forma de garantir clientela, salários e condições melhores de trabalho.

Para se ter uma ideia, Borebi está com a equipe de médicos que atua na atenção básica do centro de saúde completa. Lá, profissionais como ginecologistas, pediatras e clínicos-gerais trabalham quatro horas por dia, com salário em média de R$ 3 mil. Além disso, o município também conta com cardiologistas e ortopedistas, que atendem em dias determinados, e ganham por algumas horas de atendimento, e profissionais que atuam no pronto-atendimento, recebendo por plantão.

Na opinião do prefeito da cidade, Antônio Carlos Vaca (PSDB), apesar da dificuldade, o investimento na contratação de médicos do PSF é necessário para garantir que a população tenha atendimento adequado na área da saúde. “Você tem que pagar um salário bom para o médico poder ficar oito horas”, afirma. “O médico da família é muito importante. Eu sempre tive essa ideia de ter um médico que visitasse a família porque, muitas vezes, a doença está na própria casa”.

Questionado sobre o impacto que os gastos com o salário do médico do PSF geraria aos cofres públicos, o prefeito diz que Saúde e Educação são prioritárias. “É possível pagar. É só ter vontade política. Eu invisto muito na Educação e Saúde. Isso é ponto de honra”, declara.

Atualmente, o Governo Federal repassa R$ 8,6 mil por mês ao município para pagamento de um médico, dois auxiliares de enfermagem, uma enfermeira, seis agentes comunitários de saúde, um dentista e um auxiliar de dentista. O valor não é suficiente nem para cobrir o salário do médico, se levado em conta os R$ 8,8 mil oferecidos. O restante é complementado pelo governo municipal.

Segundo a coordenadora de Saúde de Borebi, Fernanda Ayub, o médico que atendia no PSF pediu dispensa do cargo por razões pessoais. Atualmente, uma médica está atuando por três horas diárias no programa, em caráter temporário, até que a prefeitura consiga efetivar a contratação de um profissional por oito horas.

A coordenadora acredita que os médicos da região estão atendendo em PSFs de outras cidades ou em mais de um emprego, o que justifica a dificuldade na contratação. “A gente paga bem o profissional, mas dificilmente eles conseguem atuar num lugar só. Eles têm que dar plantão e várias outras atividades para poder complementar o salário compatível com a função”, diz.




Programa Saúde da Família


No Programa Saúde da Família (PSF), equipes multiprofissionais atuam em unidades básicas de saúde acompanhando um número definido de famílias em uma área geográfica delimitada. As equipes desenvolvem ações de promoção da saúde, prevenção, recuperação, reabilitação de doenças e agravos mais freqüentes, e na manutenção da saúde desta comunidade.

“Os pacientes são visitados pelo menos duas vezes na semana, ou quando necessário. Essas visitas são agendadas e essas pessoas são acompanhadas por essa equipe”, conta a coordenadora de Saúde de Borebi, Fernanda Ayub. “Na estratégia de saúde da família, o foco principal é a prevenção”.

Como Borebi tem uma demanda considerada pequena de atendimentos médicos, para completar a carga horária, além das visitas domiciliares e participação em cursos, o médico da família também atende na unidade de saúde, sem necessidade de agendamento de consulta.

“Aqui, como é uma unidade menor, foge um pouquinho talvez da realidade das cidades grandes”, explica. “A gente não tem uma demanda grande. Então, dá para executar todos os programas voltados à saúde, mais as visitas domiciliares e atendimento da população. Você consegue atender todo mundo de uma forma tranquila durante todas as oito horas”.



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Plano de carreira



O conselheiro responsável pela Delegacia do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) em Bauru, Carlos Alberto Monte Gobbo, acredita que a prefeitura de Borebi terá muitas dificuldades para contratar um médico para o Programa Saúde da Família (PSF), apesar do salário oferecido.

“O médico não vive nessas cidades só com o SUS (Sistema Único de Saúde). Esses médicos não têm uma clientela particular, essas cidades não oferecem para ele uma perspectiva de trabalho”, diz. “Nós grandes centros, eles têm dois, três empregos, eles podem trabalhar para uma medicina complementar, para um pronto-socorro, para o setor público”.

O conselheiro critica o modelo do PSF e declara que os profissionais que optam por trabalhar neste formato de atendimento não têm nenhuma estabilidade. “Esse programa de saúde da família, ao meu ver, é um absurdo, uma enganação do governo”, declara.

“Na verdade não é o salário. Esse programa de saúde da família é uma verba que o governo federal manda para os lugares e o governo municipal entra com mais uma parte, é um negócio que não tem vinculação efetiva nenhuma. Uma hora o governo fala que acabou o programa saúde da família e essas pessoas estão na rua. Não tem garantia nenhuma”.

Na opinião de Gobbo, para que os pequenos municípios consigam atrair profissionais para o PSF, é necessário que a profissão médica passe por uma re-estruturação, transformando-se em carreira de Estado, com vários níveis para que médicos tenham a garantia de que serão promovidos e terão um plano de crescimento dentro da carreira, a exemplo de juízes e promotores.

“Movimentos médicos dentro do Congresso Nacional estão pleiteando que o Congresso reconheça a profissão médica como uma carreira de Estado”, revela. “Se fizerem isso, eu tenho certeza de que eles vão conseguir colocar médicos em todos os rincões do País”.